Por que o carro popular pode morrer?

29 de dezembro de 2021 5 mins. de leitura
O carro popular, campeão de vendas nacional por décadas, deve desaparecer e dar lugar a modelos mais caros e mais eficientes

“O carro popular morreu no Brasil”. A afirmação é forte, mas certeira na visão de especialistas. Alguns paradigmas da indústria automobilística fazem com que modelos econômicos não sejam mais interessantes. Altos volumes de vendas, mas baixa margem de lucro dos modelos contribuem para esse triste fim.

O governo do presidente Itamar Franco (1992-1994) criou incentivos para a venda de veículos 1.0 visando fomentar a indústria nacional. Desde então, os modelos ditos populares, como o Fiat Uno ou o Gol da Volkswagen (VW), foram campeões de venda ano após ano. Esse cenário mudou nos últimos tempos, quando uma série de medidas exigidas do setor automotivo tornou a venda de modelos de entrada desinteressante.

Modelos como o Fiat Uno, que utilizou praticamente o mesmo design entre 1987 e 2013, encareceriam demais para se adequar as novas demandas de segurança e eficiência energética e ambiental. (Fonte: Shutterstock/Reprodução)
Modelos como o Fiat Uno, que utilizou praticamente o mesmo design entre 1987 e 2013, encareceriam demais para se adequar as novas demandas de segurança e eficiência energética e ambiental. (Fonte: Shutterstock/Reprodução)

Novas exigências para veículos

Com a evolução do Código de Trânsito, da tecnologia e das novas políticas para o meio ambiente, uma série de novas demandas chegaram para o setor automobilístico. A maioria dos  veículos populares não comportam essas mudanças em seus padrões atuais, e atualizá-los pode não ser tão interessante para as indústrias quanto lançar modelos mais caros.

A Latin NCAP, consultoria independente que realiza testes e avaliações de segurança nos veículos na América Latina, começou a divulgar os dados de seus testes, e logo acessórios como air bag frontal e lateral e controles eletrônicos de tração e estabilidade viraram itens indispensáveis. A maioria dos carros mais baratos apenas atualiza modelos antigos e, portanto, mudanças estruturais e novos projetos gerariam custos que reduziriam a margem de lucro.

Outra exigência que mudou o setor foi a implementação do Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto) durante o governo de Dilma Rousseff. 

O Inovar-Auto estimula o setor automotivo a criar carros mais eficientes e mais seguros, além de incentivar o desenvolvimento da engenharia brasileira. Na prática, um dos efeitos do programa foi a criação de motores com menores cilindros e cilindradas, mas mais potentes. Assim, os novos modelos 1.0 competem com os antigos modelos 1.8 ou 2.0, mas com um preço bem maior.

O Programa Rota 2030, também do governo federal, prevê multas para montadoras que não atingirem determinados padrões de eficiência energética. Com isso, as montadoras estão deixando de produzir motores mais baratos que equipavam os modelos de carros populares e estão investindo em novas tecnologias. 

De olho nas mudanças exigidas no exterior, em razão das novas metas de redução de emissão de gases provenientes da queima de combustíveis fósseis, muitas indústrias já priorizam também modelos para carros híbridos, o que também é mais caro.

Dados da indústria

Outra situação que fez a paixão entre as montadoras e os modelos populares acabar foi o aumento das compras por frotistas e locadoras. Em 2003, 47,5% dos modelos Gol da VW eram vendidos para empresas desse tipo. Em 2020, o número chegou a 71%. O Fiat Uno saiu de 53,7% em 2003 para 93,6% em 2020. Esse tipo de vendas gera margem de lucro bem menor, em parte pelas grandes quantidades negociadas.

Com a chegada da pandemia causada pelo coronavírus, a indústria automobilística viu uma escassez mundial de semicondutores se consolidar. Com isso, houve uma mudança para a preferência por sistemas eletrônicos de versões mais caras, que oferecem a possibilidade de uma maior margem de lucro.

Carro mais vendido do Brasil entre 1987 e 2013, o VW Gol deve sair de linha nos próximos anos. (Fonte: Shutterstock/Reprodução)
Carro mais vendido do Brasil entre 1987 e 2013, o VW Gol deve sair de linha nos próximos anos. (Fonte: Shutterstock/Reprodução)

Com todas essas mudanças, os carros zero mais baratos do Brasil, como o Renault Kwid e o Fiat Mobi, estão na faixa dos R$ 50 mil. Com o poder de compra do brasileiro em queda, não podemos dizer que estes valores sejam populares. 

Com os modelos de entrada com estes preços, os compradores preferem investir um pouco mais para comprar modelos mais completos. Dos 10 carros mais vendidos em 2021 no Brasil, só três estão abaixo da faixa dos R$ 100 mil: o Mobi, o Fiat Argo (a partir de R$ 67 mil) e o Volkswagen Gol (a partir de R$ 68 mil).

Com o mercado mudando para privilegiar carros mais caros, não faz sentido para as montadoras manter os veículos populares que geram menores margens de lucro. Até porque muitos desses têm designs antigos com exigências específicas das linhas de produção, enquanto os novos veículos compartilham peças com vários modelos. Assim, a tendência é que a atenção das montadoras aos veículos de entrada chegue ao fim.

O Gol — o campeão de vendas no Brasil entre 1987 e 2013 — será descontinuado em 2023. O Fiat Uno, que esteve em produção por quase 40 anos, também deve ser descontinuado nos próximos anos. Sinais definitivos para o País de que o carro popular morreu.

Fonte: Neofeed, Senai, Gov.br, Auto Papo.

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