E se o compartilhamento de bikes integrasse o transporte público?

21 de maio de 2021 4 mins. de leitura
Eficazes para o transporte de última milha, as bicicletas compartilhadas podem ser geridas como transporte público e integradas ao sistema

Em muitas cidades do mundo, os serviços de bikesharing (compartilhamento de bicicletas) são geridos pela iniciativa privada, com maior ou menor envolvimento do poder público. Por mais que exista a noção de que manter as bicicletas próximo ao ônibus ou metrô seja benéfico, esses serviços são geridos de forma independente. 

Nesse sentido, já existem experiências mostrando que gerir a mobilidade ativa como transporte público pode trazer muitos benefícios para a cidade e as pessoas que se locomovem nela.

No Brasil, há o caso de Fortaleza, que está se tornando referência nacional em ciclomobilidade. O projeto Bicicletar, gerido pela prefeitura, em parceria com a empresa Serttel e Unimed, espalhou 80 estações de compartilhamento por 27 bairros da capital cearense. 

A integração com o sistema de transporte coletivo é um dos grandes trunfos do projeto, incluindo uma hora de uso gratuito das bikes para quem andar de ônibus. Essa gestão é importante para garantir a mobilidade de “última milha” ou “último quilômetro”, aquele caminho da casa das pessoas até o transporte público. 

Projeto Bicicletar é um exemplo de como integrar ciclomobilidade ao transporte coletivo no Brasil (Fonte: Prefeitura de Fortaleza/Reprodução)
O projeto Bicicletar é um exemplo de como integrar ciclomobilidade ao transporte coletivo no Brasil. (Fonte: Prefeitura de Fortaleza/Reprodução)

Os exemplos dos Estados Unidos

De forma semelhante ao que ocorre no Brasil, a maioria dos serviços de bikesharing nos Estados Unidos (EUA) são geridos pela iniciativa privada, com pouco envolvimento do poder público e baixo nível de integração com o transporte coletivo. 

Porém, em Austin, no Texas, a gestão do bikesharing foi transferida para a agência Capital Metro, que já cuidava dos outros modais, logo após a abertura do sistema BCycle, em 2013. 

Os gestores municipais perceberam que fazia mais sentido cuidar de tudo como “uma coisa só”. Com essa mudança, os usuários podem pagar pelas bicicletas com o mesmo cartão dos outros modais. Além disso, a cidade passou a incorporar estações de compartilhamento aos terminais e pontos de ônibus.

Mais importante que isso, os gestores municipais afirmam enxergar o bikesharing como complemento de outros modais, oferecendo bicicletas em rotas com pouca demanda para ônibus. Dessa forma, o sistema de transporte da cidade é otimizado e muitas pessoas que simplesmente utilizariam carros particulares, por morarem longe do transporte coletivo, ganham mais uma opção.

Em Austin, bikesharing é gerido pela agência de transportes (Fonte: CapMetro Blog/Reprodução)
Em Austin, o bikesharing é gerido pela agência de transportes Capital Metro. (Fonte: CapMetro Blog/Reprodução)

Mais do que ônibus ou bicicletas, transportes

Em entrevista ao Bloomberg CityFix, o vice-presidente da Associação Americana de Transporte Público (APTA), Art Guzzetti, afirma que a visão dos órgãos de transporte no país sobre as bicicletas mudou bastante nos últimos anos. “As agências se viam como operadoras de ônibus e trens. Porém, nos últimos anos, elas perceberam que não são gestoras de ativos — elas são gestoras de mobilidade”, ele disse.

Nesse contexto, as bicicletas podem contribuir para expandir e melhorar as rotas de ônibus ou trens, seguindo o conceito de “última milha”. Uma pesquisa do Instituto WRI (World Resources Institute), com 7 mil usuários de bikesharing na China, demonstrou que 91% das viagens tinham o transporte coletivo como origem ou destino. Em algumas cidades, a bicicleta substituiu os carros em 45% dos deslocamentos. 

Integrar as bicicletas ao planejamento do transporte coletivo traz benefícios para todos os modais e para a população que os utiliza. Outro bom exemplo dos EUA é a cidade de Dayton (Ohio): quando o órgão de transporte local lançou um novo serviço de ônibus para a universidade, eles sabiam que o ideal era construir as paradas junto às estações de compartilhamento de bicicletas.

“Você não pode resolver todas as lacunas de última milha com ônibus. Essa expansão do bikesharing vai ajudar a servir todas as comunidades”, afirmou Brandon Policicchio, gerente do órgão de transporte de Dayton, ao Bloomberg.

Fonte: WRI Brasil, Bloomberg CityFix.

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