Publicidade é essencial para o avanço das malhas cicloviárias

26 de março de 2025 4 mins. de leitura

Nas eleições municipais do ano passado muitos candidatos levantaram a bandeira do meio ambiente sem nunca mencionar a bicicleta como parte do ecossistema de soluções para mitigar os efeitos da crise climática. Estadão Mobilidade – editada por Mariana Collini em 26/03/2025 No informe publicitário da Prefeitura de São Paulo tudo parece perfeito. A capital paulista […]

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Nas eleições municipais do ano passado muitos candidatos levantaram a bandeira do meio ambiente sem nunca mencionar a bicicleta como parte do ecossistema de soluções para mitigar os efeitos da crise climática.

Estadão Mobilidade – editada por Mariana Collini em 26/03/2025

No informe publicitário da Prefeitura de São Paulo tudo parece perfeito. A capital paulista tem a maior malha cicloviária do Brasil, com 755,4 km de vias exclusivas para bicicletas. São 95,4 km a mais do que Bogotá, capital da Colômbia, que ultrapassa 660 km. No país vizinho, a previsão é que chegue a 1.200 km até 2039, meta da Política Pública de Bicicletas, o Plano de Planejamento Territorial e o Plano de Mobilidade Sustentável e Segura.

A publicidade destacava o avanço na mobilidade sustentável com a inauguração da Ciclopassarela Erika Sallum em 25 de janeiro, aniversário da cidade. Estima-se que irá beneficiar pelo menos 166 mil pessoas por dia, com o fluxo de pedestres e ciclistas entre os bairros de Pinheiros e Butantã. A obra custou R$ 46 milhões e era totalmente necessária, apesar de não beneficiar ciclistas trabalhadores que pedalam na Ciclovia Rio Pinheiros à noite, já que o acesso é fechado.

Três semanas após a inauguração, depois de uma chuva forte, o guarda-corpo da ciclopassarela desabou sobre a rede aérea da Linha 9-Esmeralda e afetou o sistema de energia. No mês seguinte, São Paulo seria surpreendida com o prêmio “Tree Cities of the World”, da Arbor Day Foundation, e da FAO, a Organização para Alimentação e Agricultura da ONU, pelo cuidado com árvores e áreas verdes. No mesmo dia em que 330 árvores caíram, uma delas atingiu o carro de um taxista que não resistiu e morreu, na região central.

Na segunda-feira, 17 de março, José Renato Nalini, secretário de mudanças climáticas de São Paulo, foi o entrevistado do programa Roda Viva, da TV Cultura. Chamou a atenção da apresentadora Vera Magalhães, que em certo momento perguntou como seria possível que ele deixasse de ser um mero articulador, um “grilo falante” e partir para a ação. A resposta do secretário não convenceu, assim como os informes publicitários estão longe de mostrar a realidade de quem usa a malha cicloviária todos os dias.

Mudanças climáticas: é preciso incluir a bicicleta como parte das ações de proteção à população

Nas eleições municipais do ano passado muitos candidatos levantaram a bandeira do meio ambiente sem nunca mencionar a bicicleta como parte do ecossistema de soluções para mitigar os efeitos da crise climática.

Segundo pesquisa Mobilidados, do ITDP, Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, apenas 27% da população está próxima de uma infraestrutura cicloviária, em São Paulo. Quando o recorte é feito por renda, apenas 16% dos paulistanos que recebem menos de um salário mínimo estão próximos de uma ciclovia ou ciclofaixa.

É preciso ouvir quem estuda o tema. Para Hannah Machado, urbanista e doutoranda em Ciência Ambiental na USP, a bicicleta é parte da solução para a descarbonização das cidades, que têm no setor de transportes a maior fonte de emissões de gases de efeito estufa.

“Os recursos destinados à infraestrutura cicloviária ainda estão aquém do necessário para que esse modo de transporte se torne mais atraente para ciclistas de todas as idades, habilidades e renda”, afirma.

Nas redes sociais, são inúmeros relatos sobre a falta de zeladoria e manutenção da malha cicloviária existente. Anônimos e famosos mostram em seus vídeos ciclofaixas estreitas, ciclovias com desnível e muitos carros e motos estacionados que não recebem uma multa sequer da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).

A violência urbana contra os ciclistas também é uma questão ignorada pelo poder público. No dia 13 de fevereiro, o ciclista Vitor Medrado foi assassinado do lado de fora do Parque do Povo, no Itaim Bibi. Levou um tiro por causa de um celular. A Polícia Civil identificou e prendeu os suspeitos.

Mas, quem pedala vai continuar seu deslocamento pela cidade como presa fácil para outros bandidos. A próxima vítima pode ser qualquer um de nós. A falta de segurança pública, além de todos os problemas da malha cicloviária, pode ser considerada hoje como um dos fatores que mais afasta quem poderia pedalar.

https://mobilidade.estadao.com.br/mobilidade-para-que/quando-o-assunto-e-malha-cicloviaria-a-propaganda-e-a-alma-do-negocio/

Foto: Werther Sanrtana/Estadão

 

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