A pandemia aprofundou a segregação socioespacial?

7 de outubro de 2021 3 mins. de leitura
Desigualdades socioespaciais nas cidades ficaram mais evidentes durante a pandemia

A pandemia tem sido marcada por apelos reiterados para “ficar em casa”, manter o distanciamento social e higienizar as mãos com água e sabão como medidas de prevenção à disseminação do coronavírus. No entanto, as recomendações esbarram na segregação socioespacial do Brasil.

Enquanto algumas pessoas puderam trabalhar em home office, mantendo a sua renda sem se exporem ao risco de contaminação no deslocamento cotidiano em transporte público, a maioria da força de trabalho do Brasil atua informalmente e não teve essa opção. 

Conceito de segregação socioespacial

Ricos e pobres podem conviver no mesmo espaço urbano, mas têm acesso diferente a serviços e bens de consumo. (Fonte: Shutterstock/Caio Pederneiras/Reprodução)
Ricos e pobres podem conviver no mesmo espaço urbano, mas têm acesso diferente a serviços e bens de consumo. (Fonte: Shutterstock/Caio Pederneiras/Reprodução)

O conceito de segregação socioespacial é fundamental para analisar e entender os processos de estruturação das cidades e foi citado pela primeira vez por pensadores da Escola de Chicago nas décadas de 1930 e 1940. Esses estudiosos, de base liberal, entendiam que o fenômeno era algo natural, fruto das escolhas individuais de cada indivíduo, grupo ou classe de renda.

No entanto, a partir dos anos 1960, a formulação passou a ser vista como um instrumento para compreender o desenvolvimento contraditório e desigual da urbanização. A estratificação dos espaços urbanos por classes sociais passou a ser compreendida por sociólogos, a exemplo de Henri Lefèbvre, Manuel Castells e Jean Lojkine, como fruto da força exercida por diversos atores políticos e moldada por fatos históricos.

A segregação socioespacial é caracterizada não somente pela distância geográfica, como centro e periferia, mas também pela diferença de acesso a serviços básicos, por exemplo moradia e mobilidade urbana, entre moradores de classe alta e da classe popular que podem, inclusive, residir nas mesmas zonas da cidade.

A pandemia aumentou as desigualdades?

A fome atingiu 19 milhões de brasileiros em 2020, segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia. (Fonte: Shutterstock/Nelson Antoine/Reprodução)
A fome atingiu 19 milhões de brasileiros em 2020, segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia. (Fonte: Shutterstock/Nelson Antoine/Reprodução)

De acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (Pnad) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de escancarar desigualdades já existentes, a crise sanitária teve um impacto desigual na renda das diferentes classes sociais no País.

Enquanto, em média, os 10% mais ricos tiveram uma perda de renda em torno de 3% durante a pandemia, os 40% mais pobres perderam mais de 30% da renda familiar obtida por meio do trabalho, já considerando o auxílio do governo federal.

Essas contradições transparecem na forma das cidades. No Brasil, a segregação socioespacial, que vem aumentando desde 2015, quando diversas políticas públicas destinadas a reduzir as diferenças entre classes sociais começaram a ser desarticuladas, tem aumentado ainda mais. 

De acordo com o Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), o índice Gini, que mede a concentração de renda nos países, registrou um aumento de 0,6003 em 2014 para 0,6279 em 2019. Durante a pandemia, o indicador registrou um recorde histórico, alcançando 0,640 no segundo trimestre de 2021.

Isso fez a população negra, por exemplo, chegar muito mais vulnerável à crise econômica provocada pela covid-19, segundo um estudo publicado pelo Boletim de Política Social (BPS) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Dessa forma, o acesso à educação, ao trabalho e ao transporte ficou ainda mais difícil para essas camadas da população.

Fonte: Unesp, FioCruz, SNIS, IBGE, FGV, Ipea.

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