O que aprender com as falhas de Gurgaon, cidade privada da Índia?

17 de setembro de 2020 5 mins. de leitura
Município é quase todo administrado pela iniciativa privada, e isso traz algumas vantagens, mas também muitos problemas

Será que um município administrado por empresas é melhor do que aqueles geridos pelo setor público? A julgar pelo exemplo de Gurgaon, cidade privada da Índia, a resposta é um pouco mais complexa do que se possa imaginar.

Gurgaon abriga muitas empresas de tecnologia e é conhecida como a
Gurgaon abriga muitas empresas de tecnologia e é conhecida como Ciber City da Índia. (Fonte: Wikimedia Commons)

Gurgaon fica no estado de Haryana, no noroeste do país, a apenas 30 quilômetros da capital Nova Déli, uma região bastante populosa. Esse local era uma área essencialmente rural até cerca de 20 anos atrás, quando diversas fábricas começaram a se instalar ali e, de certa forma, dominar o território.

Conheça o maior e mais relevante evento de mobilidade urbana do Brasil

Como analisa o jornal inglês The Guardian, um aspecto importante nesse processo de privatização é a ineficiência dos governos na Índia, pois mesmo cidades grandes e ricas, como Mumbai, sofrem com falta de água e de luz. No caso de Gurgaon, esse aspecto era ainda mais presente, pois simplesmente não existia uma administração municipal, e o local foi controlado diretamente pelo governo estadual até 2008.

4 benefícios de caminhar pela cidade

Dessa maneira, muitas licenças de construção foram liberadas em poucos anos, estimulando um crescimento extremamente rápido: com menos de 200 mil habitantes em 2001, estima-se que Gurgaon tenha quase 3 milhões hoje. As fábricas e os prédios comerciais e residenciais começaram a surgir antes dos serviços públicos mais básicos.

Em vez de esperar as autoridades, as empresas começaram a proporcionar tudo: estradas, água encanada, iluminação, segurança e coleta de lixo. Absolutamente toda a estrutura necessária para Gurgaon funcionar foi criada — e é mantida até hoje — pelas companhias que, basicamente, construíram a cidade.

Gurgaon cresceu no rastro da especulação imobiliária, por iniciativa privada
Por seu caráter privado, Gurgaon cresceu no rastro da especulação imobiliária. (Fonte: Wikimedia)

Como são os serviços na cidade privada?

Um dos mais importantes estudos sobre Gurgaon foi feito por dois economistas da Universidade de Nova York, Shruti Rajagopalan e Alexander Tabarrok. Eles explicam que a cidade nasceu e cresceu no rastro da especulação imobiliária: enormes condomínios de luxo foram construídos para abrigar os altos funcionários das empresas, e cada um deles construiu a própria estrutura de serviços, sendo mantidos por organizações de moradores e pelas construtoras.

Sempre que um poste dá problema, em vez de esperar um mês, um funcionário da empresa de manutenção está lá no dia seguinte para consertá-lo, como relatam moradores ao The Guardian. O corpo de bombeiros é o único na Índia com equipamentos para apagar incêndios em andares altos, e os hospitais são tão avançados que pessoas do país inteiro vão até lá para se tratar.

Até o corpo de bombeiros é mantido por empresas em Gurgaon (Fonte: The Guardian/Reprodução)
Até o corpo de bombeiros é mantido por empresas em Gurgaon. (Fonte: The Guardian/Reprodução)

Em que a cidade privada falha

Um dos principais problemas da cidade privada é a desigualdade extrema. Como a maioria dos terrenos tem dono, as pessoas mais pobres que desejam morar em Gurgaon têm poucas opções e vivem em apartamentos alugados em muitos casos pertencentes às mesmas empresas que constroem os condomínios de luxo.

Esses prédios funcionam como favelas verticais, conhecidas localmente como pukkas. É um processo de favelização com a ocupação irregular de áreas abertas, e quem vive nesses locais não tem acesso aos atendimentos mais essenciais.

Barcelona terá linha de metrô subterrânea mais longa da Europa

Além disso, alguns serviços simplesmente não funcionam no modelo segregado que existe em Gurgaon mesmo para quem pode pagar. Um dos casos mais emblemáticos é o saneamento básico: os prédios mais ricos só têm água encanada por causa de geradores a diesel, e o esgoto vai todo para os rios. Em meio aos campos de golfe e shoppings centers modernos, há montanhas de lixo e animais por todos os lados.

A luz elétrica é outro serviço que falha frequentemente, e, como não existe transporte público (fora alguns ônibus de empresas), a cidade depende 100% dos carros. Nesse cenário, Gurgaon acabou sendo eleita a cidade mais poluída do mundo, em 2019, em pesquisa do Greenpeace e IQ Air Visual.

Há montanhas de lixo, em meio aos condomínios de luxo de Gurgaon (Fonte: The Guardian/Reprodução)
Há montanhas de lixo em meio aos condomínios de luxo de Gurgaon. (Fonte: The Guardian/Reprodução)

Em vista disso, economistas concluem que Gurgaon tem serviços acima da média indiana, mas para quem pode pagar. Os pesquisadores também afirmam que a população não parece se importar com quem oferece os produtos, se empresas ou governos, desde que funcionem. Porém, a administração privada gera outros graves problemas: extrema desigualdade, ineficiência de muitos atendimentos mesmo para os ricos, além de problemas ambientais e entraves na mobilidade urbana.

Fonte: Business Insider, The Guardian, Universidade George Mason

Curtiu o assunto? Clique aqui e saiba mais sobre como a mobilidade pode melhorar os espaços.

Gostou? Compartilhe!