Por que Groningen, na Holanda, é referência em mobilidade urbana?

24 de outubro de 2020 4 mins. de leitura
Há quase cinco décadas, a cidade holandesa tem seu planejamento de mobilidade urbana voltado principalmente para pedestres e ciclistas

Na década de 1960, a maioria das cidades da Holanda estava sofrendo constantes congestionamentos devido ao número crescente de carros e, com isso, bairros antigos estavam sendo completamente demolidos para possibilitar a passagem de novas rodovias. No entanto, Groningen, uma cidade universitária ao norte do país, resolveu adotar um caminho diferente.

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No final dos anos 1970, Max van den Berg, um político local de apenas 24 anos fez uma proposta inédita: alterar radicalmente a política de trânsito e desenvolvimento urbano da cidade, expulsando os carros do centro para abrir espaço a pedestres e ciclistas. O jovem recebeu enorme resistência, inclusive em seu próprio partido, mas conseguiu colocar a ideia em prática. 

Quase cinco décadas depois, mais de 60% das viagens em Groningen são feitas por bike. Com quase 200 mil habitantes, a localidade tem 300 mil bicicletas e 75 mil veículos, uma proporção rara em qualquer centro urbano do mundo. Por essas razões, a cidade é considerada a capital do ciclismo na Holanda e se tornou referência mundial de mobilidade urbana. 

Plano de Circulação de Tráfego

A bicicleta é o meio de locomoção mais comum de Groningen, que conta com uma infraestrutura cicloviária que é referência mundial. (Fonte: Shutterstock)
A bicicleta é o meio de locomoção mais comum de Groningen, que conta com uma infraestrutura cicloviária que é referência mundial. (Fonte: Shutterstock)

O Plano de Circulação de Tráfego de Groningen aproveitou a característica histórica da cidade para promover a cultura do ciclismo. Por mais de mil anos, a cidade sofreu ataques severos, e seu espaço foi confinado entre muros e fortificações, o que tornou seu desenho urbano compacto e favorável aos deslocamentos com bicicletas e pedestres.

O plano dividia a parte central da cidade em quatro quadrantes e tornava impossível que os carros passassem de um quadrante para outro cruzando pelo centro, sendo necessário dar uma volta por um anel exterior para chegar ao destino. Ao mesmo tempo, foi dado mais espaço e liberdade para bicicletas e pedestres.

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As viagens de bicicletas ficaram mais atrativas: os deslocamentos com carros que demoravam 12 minutos, agora são feitos em apenas dois2 minutos de bicicleta. Isso permitiu descongestionar as áreas centrais da cidade e, além disso, a medida tornou o centro um ambiente mais agradável — com medidas de segurança e conforto para mobilidade ativa.

Da noite para o dia

O Plano de Circulação do Tráfego foi implantado em uma única noite em 1977. Centenas de novos sinais foram colocados para criar ruas de mão única ou mudar sua direção. Da noite para o dia, literalmente, o centro de Groningen tornou-se impenetrável para os carros. Os comerciantes ficaram furiosos e acharam que iriam à falência.

Após a implementação do plano, novas ciclovias foram construídas, e árvores foram plantadas no centro. A Vismarkt, uma praça central que durante anos foi um grande estacionamento, recuperou sua função histórica de mercado. Assim, o tão temido desastre comercial simplesmente não aconteceu, a maioria dos lojistas sobreviveu e alguns deles até prosperaram.

Continuidade das ações

Estacionamentos para bicicletas, tanto públicos quanto privados, vivem lotados na cidade holandesa. (Fonte: Shutterstock)
Estacionamentos para bicicletas, tanto públicos quanto privados, vivem lotados na cidade holandesa. (Fonte: Shutterstock)

Perto da principal estação ferroviária, existem 10 mil vagas no estacionamento para bicicletas, e a cidade planeja construir 5 mil novas até 2025. Além disso, o poder local tornará obrigatória uma “análise do efeito da bicicleta” para cada novo projeto de desenvolvimento territorial.

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A capital do ciclismo na Holanda também pretende abrir novas áreas de estacionamento para bicicletas, com serviços de aluguel de bikes nas estradas de acesso para incentivar os motoristas a deixar seus carros e entrarem na cidade de bicicleta. Além disso, o município deseja implementar semáforos inteligentes e ciclovias aquecidas.

Em Groningen, ainda há planos para ampliar sua infraestrutura cicloviária, aproveitando os novos projetos que serão implantados nos próximos anos. A cidade também quer retirar os ônibus do centro e futuramente fazer com que eles também usem o anel viário. Dessa forma, continuará ampliando o espaço para pedestres e ciclistas.

Fonte: The City Fix Brasil, The Guardian, Cidade de Groningen, Archdaily.

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