Segregação socioespacial impacta saúde de crianças na periferia

16 de dezembro de 2021 5 mins. de leitura
Pesquisa realizada nos Estados Unidos confirma a percepção de que a segregação socioespacial eleva as desigualdades e atravessa diferentes esferas da vida

Em entrevista ao Estadão Summit Mobilidade Urbana em 2020, o patologista Roberto Saldiva comentou que as necrópsias permitiam ver os problemas sociais dos indivíduos. Do que, como e quando morrem dizem muito sobre a qualidade de vida da pessoa. “Tenho a impressão de que, a cada estação de metrô rumo à periferia, a expectativa de vida cai um ano”, comentou o médico.

E, ao que parece, não se trata de mera forma de expressão. Um estudo coordenado por Craig Evan Pollack, da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins, em Baltimore, chegou à conclusão de que a saúde “tem CEP”.

Entenda melhor o assunto e por que a segregação socioespacial tem preocupado cada vez mais pesquisadores pelo mundo.

Conheça melhor o estudo

A pesquisa demonstrou que morar em bairros pobres afeta diretamente a saúde das crianças devido à falta de atenção básica. (Fonte: Haryk Shalunts/Shutterstock/reprodução)
A pesquisa demonstrou que morar em bairros pobres afeta diretamente a saúde das crianças devido à falta de atenção básica. (Fonte: Haryk Shalunts/Shutterstock/reprodução)

O grupo de pesquisadores do hospital Johns Hopkins analisou dados que foram coletados para um estudo sobre o Moving to Opportunity (MTO). Esse fenômeno consiste na mobilidade de famílias para áreas com mais serviços disponíveis, a exemplo de saúde e educação.

A equipe de Pollack estava interessada particularmente no impacto que essa mudança tinha nos cuidados da saúde, pois cada Estado regula o nível de cobertura do Medicaid, programa de assistência à saúde, e esse era um fator importante para a migração das pessoas. Em alguns deles, o atendimento é precário e dá conta de atender apenas as pessoas em extrema vulnerabilidade, como as em situação de rua.

Mas a percepção dessas famílias estava correta? Mudar para outras regiões impactam o direito à saúde? Se sim, o que os dados demonstram?

Foram analisadas mais de 9 mil crianças. Algumas delas estavam em famílias que se mobilizaram para ser mais bem amparadas pelo programa por meio de vouchers mais generosos; outras faziam parte de um grupo-controle e não contavam com o serviço na mesma qualidade.

Os cientistas descobriram que as crianças atendidas pelo voucher tiveram menor taxa de internações: 36% menores em relação à asma, uma das principais causas de adoecimento grave na infância, e 30% mais baixos em relação a transtornos psiquiátricos. A procura por serviços ambulatoriais também caiu.

Diante disso, a publicação considera que as políticas de habitação que reduzem a exposição à pobreza e à escassez de cuidados durante a infância são capazes de diminuir a demanda por atenção clínica e serviços especializados. 

Do ponto de vista da desigualdade socioespacial e dos efeitos dessa segregação, chama atenção o fato de que a moradia não é apenas um lugar-dormitório, mas passa por uma rede de relações que impacta diretamente as condições de vida e o acesso a oportunidades.

Do ponto de vista da saúde pública, essa condição é ainda mais central: a ampliação do acesso a cuidados básicos não apenas melhora a qualidade de vida, mas pode ser uma forma de investimento, já que a atenção secundária e terciária (em clínicas especializadas e hospitais) custa mais do que fazer a prevenção e o monitoramento.

Entenda como o ambiente influencia na saúde: o caso brasileiro

Os agentes de controle de endemia são exemplos de como a atenção básica territorializada pode melhorar a qualidade de vida da população. (Fonte: Joa Souza/Shutterstock/reprodução)
Os agentes de controle de endemia são exemplos de como a atenção básica territorializada pode melhorar a qualidade de vida da população. (Fonte: Joa Souza/Shutterstock/reprodução)

A saúde pública brasileira é uma referência no mundo. Previsto na Constituição de 1988 e regulado em 1990, o Sistema Único de Saúde (SUS) foi capaz de cobrir todo o País e oferecer uma estrutura de atenção básica de modo territorializado.

Em 1994, o governo de Fernando Henrique Cardoso implementou uma política chamada Programa Saúde da Família, a qual foi elevada anos mais tarde a uma estratégia. Trata-se de uma nova abordagem de cuidado centrada no indivíduo e no amparo coletivo que considera seu entorno familiar e comunitário.

Graças a isso, pode-se contar com agentes comunitários que fazem a mediação entre a unidade de saúde e o cotidiano das pessoas em suas casas, bem como realizar consultas domiciliares de forma interdisciplinar. Desse modo, é possível oferecer uma atenção que considera a realidade objetiva.

Isso é útil porque se consideram também possíveis focos de endemia. Se uma comunidade tiver problemas de saneamento básico, por exemplo, isso deve estar presente na estratégia de cuidado da equipe sanitária. Assim, podem ser corrigidos problemas ligados à infraestrutura, como os percebidos pelo estudo de Pollack.

Fonte: Taylor and Francis Online, Sidewalk Talk.

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