Como a economia circular pode contribuir para a mobilidade urbana?

1 de maio de 2021 5 mins. de leitura
Com desafios complexos, a economia circular pode ajudar principalmente as maiores cidades

Você já deve ter ouvido a seguinte expressão: “se a vida der limões, faça uma limonada”. A criatividade pode ser a diferença entre enxergar um problema ou uma oportunidade. Isso vale para o setor de mobilidade urbana, que pode encontrar formas de energia pela chamada economia circular.

Por meio desse conceito, considera-se o resíduo gerado na produção de itens para alimentar outros ciclos produtivos. Assim, em vez de um passivo ambiental, passa-se a ter um ativo. 

No caso da mobilidade urbana, isso se aplica principalmente à questão energética. Um dos maiores desafios do setor é oferecer respostas eficientes a cidades cada vez maiores e mais complexas sem, no entanto, fazer o uso de matrizes poluentes, como a queima de combustíveis fósseis.

O potencial da economia circular na mobilidade

Ônibus em Estocolmo são abastecidos com biocombustível gerado do lixo dos habitantes da cidade. (Fonte: Petratrollgrafik/Shutterstock)
Ônibus em Estocolmo são abastecidos com biocombustível gerado do lixo dos habitantes da cidade. (Fonte: Petratrollgrafik/Shutterstock)

Em diversas áreas, a economia circular já é aplicada de forma a gerar renda e transformar problemas ambientais em soluções para demandas humanas que não agridam o meio ambiente. Um exemplo é a cevada que resta da produção de cerveja e pode se tornar ração animal.

Segundo Gustavo Bonini, diretor de Relações Institucionais e Governamentais da Scania e vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), já existem momentos em que a economia circular pode auxiliar na solução de problemas da mobilidade urbana, e o principal exemplo vem da Suécia.

Em Estocolmo, capital do país nórdico, o lixo e o esgoto residencial se transformam em biometano, capaz de abastecer veículos e prover gás de cozinha. Segundo Bonini, que estuda soluções do setor, o excedente do biocombustível é vendido para movimentar a frota de ônibus da cidade.

Além da vantagem ambiental, existem benefícios financeiros interessantes. Em primeiro lugar, pela geração de empregos. A transformação dos resíduos tem o potencial de criar uma indústria permanente de beneficiamento que pode atender à demanda local e exportar tanto os produtos como a tecnologia empregada.

Não é de hoje que a Suécia se destaca em relação à mobilidade. Estocolmo é pioneira no conceito de Visão Zero e alguns dos encontros das Nações Unidas sobre mobilidade urbana são hospedadas pela capital sueca em razão do protagonismo em políticas desse setor.

Necessidade de uma aposta estratégica

A oscilação do preço do barril do petróleo é uma das razões que fazem o uso de resíduos sólidos ser interessante às economias nacionais. (Fonte: TradingView/reprodução)
A oscilação do preço do barril do petróleo é uma das razões que fazem o uso de resíduos sólidos ser interessante às economias nacionais. (Fonte: TradingView/reprodução)

Outro benefício citado por Bonini é que, com o uso desses resíduos, deixa-se de depender de combustíveis lastreados por variações externas, como ocorre com o petróleo.

No entanto, isso exige que ocorra uma aposta estratégica por parte do poder público, a qual deve ser considerada um investimento. A oscilação do barril do petróleo não é apenas um fator que interfere na economia global (em 2019, os barris chegaram a US$ 70 e passam por um novo crescimento histórico), como também está no centro da política de Estado de diversos países.

Por trás da questão energética, também está a soberania dos países, que, no caso brasileiro, ganha ainda mais importância. Com proporções continentais, ferrovias e hidrovias incipientes, o abastecimento de uma população com mais de 200 milhões de pessoas depende diretamente do modal rodoviário, que ainda tem na queima de combustíveis a sua energia principal.

O que falta para o Brasil apostar em energia circular?

O Brasil precisa de políticas de fomento à economia circular que possam beneficiar diversos setores da sociedade. (Fonte: Kaband/Shutterstock)
O Brasil precisa de políticas de fomento à economia circular que possam beneficiar diversos setores da sociedade. (Fonte: Kaband/Shutterstock)

Segundo Bonini, apenas na Grande São Paulo os aterros recebem lixo de mais de 22 milhões de pessoas todos os dias. Portanto, há matéria-prima disponível que poderia ser usada na geração de emprego e renda, com o benefício de resolver problemas ambientais.

Soma-se a isso um outro custo: de acordo com o diretor, a poluição causada pela frota baseada em matrizes custa mais de R$ 60 bilhões por ano aos cofres públicos. Portanto, é fundamental que o Estado incentive fontes energéticas e limpas, com potencial para resolver problemas sociais. 

Ainda para ele, o setor privado espera que o Estado seja capaz de traçar metas e gerar incentivos para que tanto empresas quanto sociedade civil se organizem na busca de soluções frente a isso.

“Não é atribuição dos governos escolher a melhor tecnologia na transição entre os dois modelos, mas fixar metas de redução de emissões e deixar o setor privado disputar quem vai entregar a melhor tecnologia com o menor custo”, concluiu Bonini.

Fonte: Trending View, Alacip, Fiemg, Mobilidade Estadão.

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