Como as cidades planejadas da União Soviética foram pensadas?

29 de outubro de 2021 4 mins. de leitura
Como as cidades planejadas da União Soviética foram pensadas?

O urbanismo na União Soviética (URSS) utilizava princípios muito diferentes dos ocidentais, com bastante intervenção estatal e decisões centralizadas no comando do Partido Comunista, em Moscou. 

Uma anedota famosa sobre o urbanismo soviético pode ser vista na tradicional comédia A Ironia do Destino, de 1976, em que um homem está voltando para a capital, porém troca os voos e vai parar em um endereço igual ao seu, mas em Leningrado. 

A cena ironiza as cidades soviéticas planejadas de forma muito parecida. Há até uma animação no início do filme, mostrando como o comando do partido intervinha nas decisões dos arquitetos e urbanistas para criar moradias semelhantes em todo o país. 

Por que as cidades planejadas soviéticas eram assim?

Por mais que essa semelhança excessiva entre as cidades pareça até cômica, o urbanismo soviético tinha suas razões para ser assim, pois envolvia as escolhas feitas pelo governo de Moscou para prover moradia para toda a população — e, claro, disseminar os ideais de vida comunitária do Partido Comunista. 

Além disso, é importante ponderar que todos os terrenos eram de propriedade do governo, que construía as cidades e distribuía moradia para a população. A falta de variedade em todo o país é reflexo dessa centralização.

Dito isso, é possível identificar alguns períodos particulares no urbanismo soviético. O primeiro compreende os anos iniciais do governo de Joseph Stalin, quando os urbanistas ainda refletiam sobre como as cidades planejadas soviéticas deveriam ser. As casas desse período tinham o mínimo de espaço e conforto, para estimular que as pessoas passassem mais tempo fora de casa em atividades comunitárias. 

Logo se viu que as pessoas não gostavam de viver em apartamentos tão pequenos e, então, surgiram prédios baixos e bem simples para a classe trabalhadora, mas com um pouco mais de espaço, conhecidos como “stalinkas”. Por outro lado, edifícios maiores e mais ornamentados foram construídos para a elite do Partido Comunista, especialmente em cidades como Moscou.

Os planos de Stalin para a capital da União Soviética nos anos 1930 e 1940 incluíam pensar em bairros inteiros, não em prédios individuais, além da realização de megaprojetos, como o metrô de Moscou e as Sete Irmãs, um grupo de arranha-céus luxuosos que se tornaram os maiores da Europa na época. 

O plano de Stalin para Moscou incluiu nove arranha-céus luxuosos, sendo que sete foram realmente construídos. (Fonte: Wikimedia Commons)
O plano de Stalin para Moscou incluiu nove arranha-céus luxuosos, sendo que sete foram realmente construídos. (Fonte: Wikimedia Commons)

A padronização e simplicidade com Khrushchov e Brezhnev

Já nos anos finais do governo Stalin, Nikita Khrushchov — que seria o próximo líder da União Soviética — buscou diminuir os excessos da “arquitetura stalinista”. Sua abordagem envolvia construir o máximo de casas, com o mínimo de recursos e no menor tempo possível. 

É dessa época que vem o máximo de padronização das moradias soviéticas: prédios sempre com 5 andares, para não precisar de elevador, estrutura de painéis de concreto pré-fabricados e apartamentos de um quarto (30 m²) ou três quatros (60 m²). 

No ápice do programa de moradia, estima-se que mais de 60 milhões de soviéticos chegaram a viver nesse estilo de apartamento, que ficou conhecido como khrushchyovka. Contudo, a falta de variedade e atrativos visuais dessas construções era criticada — o que estimulou mudanças no plano, a partir dos anos 1960, com o governo de Leonid Brezhnev. Novos tipos de apartamento foram criados, ainda que simples.

Prédios padronizados eram construídos por toda a União Soviética nos governos Khrushchov e Brezhnev. (Fonte: Wikimedia Commons)
Prédios padronizados eram construídos por toda a União Soviética nos governos Khrushchov e Brezhnev. (Fonte: Wikimedia Commons)

Esses apartamentos eram construídos em cidades planejadas ou em expansões das cidades já existentes. Em ambos os casos, eram criados bairros inteiros, os microrayons, com os apartamentos e demais serviços públicos necessários. O objetivo era que qualquer morador tivesse centros de convivência, comércios, escolas e demais estabelecimentos a menos de 500 metros de sua casa, saindo do microrayon apenas para trabalhar. 

Cada microrayon era cortado por vias arteriais, para que as pessoas pudessem fazer tudo a pé. Para trabalhar, era possível usar os amplos sistemas de transporte público. Mas, de modo geral, as cidades planejadas da União Soviética eram muito menos centralizadas, com um movimento pendular (das periferias para o centro) muito menor.

Fonte: City Beautiful.

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