BRT Rosa: quais são os prós e contras do ônibus para mulheres?

19 de dezembro de 2021 4 mins. de leitura
Ônibus com espaço exclusivo para mulheres e crianças entra em circulação no Rio de Janeiro para coibir práticas de assédio

A prefeitura do Rio de Janeiro implementou, em outubro deste ano, o Bus Rapid Transit (BRT) Rosa — veículos com um espaço exclusivo para o uso de mulheres e crianças. O projeto-piloto aconteceu na linha 17 (Campo Grande-Santa Cruz), na Zona Oeste da capital, e deve se expandir para mais linhas no futuro. 

No BRT Rosa ficam demarcados espaços que, nos horários de pico (05h às 08h e 16h às 19h) só podem ser usados por mulheres e crianças. O projeto é de autoria da vereadora Verônica Costa (DEM).

(Fonte: Prefeitura do Rio/Reprodução)
(Fonte: Prefeitura do Rio/Reprodução)

O espaço exclusivo será garantido pela Guarda Municipal, que vai atuar na organização das filas e nas campanhas informativas. A iniciativa é uma tentativa das autoridades de coibir casos de agressão sexual às mulheres, que são comuns no transporte público, principalmente em horário de pico.

Espaços serão protegidos pela Guarda Municipal. (Fonte: Marcos de Paula/Prefeitura do Rio/Reprodução)
Espaços serão protegidos pela Guarda Municipal. (Fonte: Marcos de Paula/Prefeitura do Rio/Reprodução)

A realidade do transporte público

O Instituto de Políticas de Transporte & Desenvolvimento — Brasil (ITDP) publicou um relatório, em 2018, analisando o transporte público brasileiro e concluiu que a mobilidade urbana não é neutra em relação ao gênero e raça. 

Diversas tendências dos governos e das empresas, como os investimentos que priorizam o transporte individual motorizado acabam por excluir algumas parcelas da população do acesso e do usufruto das cidades. As pessoas mais afetadas por essa política são as mulheres e crianças, principalmente as negras de baixo poder aquisitivo.

Pesquisas demonstram que homens e mulheres se deslocam de modo bastante diferente pelas cidades, as mulheres são maioria nos transportes públicos e também tendem a andar mais a pé que os homens. 

Em São Paulo, uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em 2020 mostrou que 43% das mulheres já sofreram algum tipo de assédio no transporte público. O crime é mais comum nos horários de pico, apesar do alto número de testemunhas a lotação dificulta a fiscalização.

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Outra pesquisa dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva foi mais além e incluiu cantadas ofensivas e olhares insistentes como formas de assédio, nesses casos os dados são mais assustadores: 97% das entrevistadas de todo o país afirmam já ter sofrido algum tipo de abuso no transporte coletivo. 

Além disso, outro dado que demonstra a dificuldade em coibir este comportamento é de que 71% das entrevistadas conhecem alguém que sofreu assédio em público.

Maioria dos assédios acontece no horário de pico. (Fonte: Shutterstock)
Maioria dos assédios acontece no horário de pico. (Fonte: Shutterstock)

A antropóloga e pesquisadora de violência de gênero e políticas públicas Flávia Melo, ao comentar a pesquisa para o jornal Em Tempo, do Amazonas, sublinhou que estes comportamentos são decorrentes das desigualdades de gênero. Para a pesquisadora, a forma como a sexualidade masculina é construída incentiva e normaliza abordagens que tentam se apropriar do corpo feminino, provocando uma série de violências.

Debates sobre a medida

Medidas como a do BRT Rosa que acontecem em outras cidades e países têm a clara vantagem de garantir a segurança e a tranquilidade das mulheres impedindo o contato com agressores em potencial. 

Todos os dados mostram que a maioria das situações de assédio acontece contra mulheres e apenas uma pequena porcentagem chega a ser denunciada. Dos casos que chegam à polícia, poucos são resolvidos. Assim a medida de separar os vagões é uma forma de corrigir uma série de erros que acontecem na sociedade e tornam o assédio uma prática tão comum.

Por outro lado, críticos da medida afirmam que a separação dos vagões não pune os culpados, que poderão achar outra oportunidade para cometer os crimes. Além disso, afirmam que isso afeta os homens que terão menos vagas disponíveis para as viagens.

Fonte: TW Transporter, IMAM.

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