O que a vida e a morte de Marina Harkot têm a ensinar?

11 de novembro de 2020 5 mins. de leitura
Motorista que atropelou a cicloativista fugiu sem prestar socorro; Harkot deixa produção importante sobre o tema

No dia 8 de novembro, a cicloativista Marina Harkot, de 28 anos, morreu na capital paulista ao ser atropelada enquanto fazia um trajeto habitual de bicicleta no sentido de casa. O motorista do veículo não parou para prestar atendimento.

A morte da cientista social, cujo projeto de mestrado tratou das razões do baixo uso da bicicleta por mulheres na cidade em São Paulo, causou ainda mais consternação diante da causa do falecimento. 

Por que o atropelamento de ciclistas disparou no Brasil?

O atropelamento seguido de morte está longe de ser uma exceção. Três ciclistas morrem no Brasil todos os dias em razão de acidentes de trânsito. Os dados são da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), que mapeou os óbitos dessa natureza no País com informações dos últimos 10 anos.

Mas por que esse número é tão grande? O que as mortes de ciclistas como a Marina têm a ensinar? E como a própria produção da jovem auxilia na resposta dessas questões?

Lugar social

O tema da mobilidade deve ser considerado em relação à vida concreta de quem vive nas cidades. (Fonte: Shutterstock)
O tema da mobilidade deve ser considerado em relação à vida concreta de quem vive nas cidades. (Fonte: Shutterstock)

A dissertação defendida em 2018 por Marina Harkot procurou listar as principais razões pelas quais a bicicleta é um modal que sofre resistência entre as mulheres paulistanas e o que significa falar de gênero e mobilidade ativa.

Nos agradecimentos, Marina relatou que escrever um trabalho acadêmico é uma experiência intensa, porque a pesquisa causaria “revoluções internas”. Isso explica a opção de estudo da cicloativista, que também era feminista e participava do Grupos de Trabalho de Gênero da Ciclocidade, entidade da sociedade civil em que militava.

Esses elementos são importantes porque, na definição das políticas de mobilidade, o ciclista não é um sujeito abstrato. Em vez disso, é atravessado por sua condição de gênero, raça, classe e território — elementos que Marina estudava agora em seu doutorado.

Nas entrevistas da dissertação, Marina apresentou uma mulher do Centro de São Paulo, branca, de 35 anos, para quem a bicicleta é um meio de transporte e que possui amigos que pedalam, embora com menos intensidade. 

Ciclomobilidade ajuda a empoderar mulheres negras e periféricas

Em outro momento, uma mulher negra de 50 anos, da Zona Sul, relata ter parado de pedalar há muitos anos por ter se casado e engravidado cedo. Esses elementos apresentam pistas de como o lugar social marca também as opções de mobilidade. 

Mesmo quando o uso da bicicleta se refere a lazer, os relatos também refletem a desigualdade da cidade: enquanto uma mulher branca de 50 anos do centro diz que pedalar na chuva é divertido, a mulher da mesma idade e moradora da Zona Sul relata que evita subir muitos morros pedalando, pois trabalha a noite inteira em pé.

Gênero

Infraestrutura adequada é apenas um dos fatores que podem fazer as mulheres se sentirem mais seguras para aderir à bicicleta. (Fonte: Shutterstock)
Infraestrutura adequada é apenas um dos fatores que podem fazer as mulheres se sentirem mais seguras para aderir à bicicleta. (Fonte: Shutterstock)

A dissertação possui uma única dedicatória curta: “Ao meu avô Armando, para quem nunca houve ‘coisas de menino’ e ‘coisas de menina'”. A vinculação a uma perspectiva de gênero pode trazer elementos importantes na definição das políticas de ciclomobilidade e no planejamento territorial.

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A pesquisa de Marina revelou, por exemplo, que os homens e as mulheres entrevistadas na dissertação são sensíveis à questão de gênero no ciclismo: ambos percebem que os homens ciclistas seriam mais respeitados e menos propensos à violência na rua. 

Já as mulheres entrevistadas, além de relatarem desrespeito, assédio e violência, acrescentaram que o trabalho reprodutivo e os filhos pequenos são impeditivos ao uso da bike no cotidiano.

Abordagem

Soluções simples e baratas, como as faixas compartilhadas, podem reduzir drasticamente o número de acidentes no trânsito. (Fonte: Shutterstock)
Soluções simples e baratas, como as faixas compartilhadas, podem reduzir drasticamente o número de acidentes no trânsito. (Fonte: Shutterstock)

A vida e a morte de Marina também demonstram a importância de se debater temas como a dicotomia entre o ciclismo veicular, do inglês John Forester, segundo o qual as bicicletas devem ser apenas mais um veículo a partilhar das vias urbanas; e o ciclismo segregado, para o qual a ciclomobilidade deveria gozar de espaços únicos para transitar, como ciclovias. 

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Uma opção intermediária também merece atenção: a das vias compartilhadas. Elas são de instalação fácil, barata e rápida, permitindo que bicicletas e automóveis dividam espaços paralelos.

Para além disso, faz-se cada vez mais necessário levar em conta a espinha dorsal do Visão Zero, projeto sueco que busca combater as fatalidades nas vias: a ideia de que nenhuma morte no trânsito é aceitável. 

No entanto, nenhuma dessas soluções será suficientemente adequada sem levar em conta variáveis tão defendidas por Marina, como o gênero, a raça e a classe social.

Fonte: USP, Lattes, Estadão.

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