Ciclomobilidade ajuda a empoderar mulheres negras e periféricas

21 de setembro de 2020 5 mins. de leitura
Conheça o projeto de Salvador que busca ampliar o acesso à cidade de mulheres marginalizadas por meio da bike

Embora possa abrir possibilidades de experienciar o espaço urbano, a bicicleta ainda é um modal restrito a uma elite em boa parte das cidades brasileiras. A empreendedora Lívia Suarez ficou bem certa disso depois de fazer um levantamento na internet e perceber, por exemplo, que boa parte das mulheres negras de Salvador não sabia pedalar. “Para muitas delas, andar de bike era só um sonho de infância deixado para trás”, ela contou. 

Conheça o maior evento de mobilidade urbana do Brasil

Lívia já era engajada em questões ligadas à ciclomobilidade desde a criação de seu primeiro projeto, o La Frida Bike, cafeteria móvel que circula nas ruas e promove eventos culturais idealizados com sua sócia Maylu Isabel. Ao identificar, junto a sua parceira, o quão fundamental era aproximar mulheres periféricas do universo da bicicleta, passou a pensar soluções para isso.

Assim nasceu o Preta Vem de Bike, projeto que ensina mulheres negras e marginalizadas a pedalar e vivenciar a cidade de forma segura e consciente. Adiante, surgiu também a Casa La Frida, um espaço aberto para debater o tema, além de receber shows, cursos e funcionar como oficina. 

Logo, o guarda-chuva ganhou mais uma frente: uma linha de bikes chamada Bicipreta, que desenvolve produtos como um capacete pensado especialmente para o cabelo afro. 

Lívia Suarez, idealizadora do projeto La Frida Bike
Lívia Suarez é idealizadora do projeto La Frida Bike, que visa a promover a ciclomobilidade entre mulheres negras e periféricas. (Fonte: La Frida Bike/Divulgação)

Ajudar a democratizar a bike e aumentar oportunidades por meio desse modal a mulheres que ainda estão à margem da sociedade é um desafio constante para Lívia. 

Em entrevista ao Summit Mobilidade Urbana, a ativista fala do contexto que vivencia e de como tem trabalhado para enfrentar desigualdades socioespaciais. 

Como você avalia o cenário da ciclomobilidade em Salvador?

Ainda vamos fazer a contagem de ciclistas este ano, mas de maneira observacional, de 2015 para cá, a gente teve um crescimento absurdo. E antes não havia tantas pessoas negras utilizando a bicicleta. Hoje a gente vê muito mais e gente usando a bike tanto como meio de transporte e lazer quanto em serviços de entrega. 

Qual o papel do La Frida Bike em meio a esse contexto?

A gente não só atua nesse papel direto de ensinar e de capacitar as mulheres para usarem a bike, mas também estamos em diálogo com o governo, para implementar ciclovias, ampliar a segurança para ciclistas e pensar integrações do metrô. Então, trabalhamos mediante ação direta, mas também desempenhamos um papel interligado com as políticas públicas.

Por que a bicicleta é especialmente importante quando se fala em empoderar mulheres negras?

Um primeiro ponto é que mulheres negras são podadas de sonhar. O racismo nos leva a pensar que não somos capazes de executar determinadas funções e ingressar em determinados campos. A sociedade impõe que aquele lugar não é seu. 

Mulheres reunidas em Casa La Frida, Salvador
Casa La Frida, em Salvador, promove encontros para discutir a ciclomobilidade entre mulheres periféricas. (Fonte: La Frida Bike/Divulgação)

A bicicleta é importante às mulheres negras por diversos motivos. No meu caso, por exemplo, ela veio como um processo de cura. Mas esse modal também nos dá muitas permissões de acessos e de possibilidades. 

A pandemia tem ganhado adeptos para o mundo das bikes. Como você percebe esse movimento?

Algo que eu tenho percebido é que a bicicleta não está ganhando mais adeptos porque as pessoas estão mais conscientes ou pensando na sustentabilidade. As pessoas estão usando a bike porque querem uma ferramenta segura para evitar contato com o vírus. Então, eu acho que agora o papel da gente é pensar em como manter esse movimento ideal, porque senão a gente volta para a estaca zero. 

Assim como o La Frida Bike, existem outros projetos interessantes que buscam garantir o acesso à cidade a a grupos marginalizados. Esses movimentos dialogam entre si?

Sim, nós temos uma rede colaborativa ampla. Ano passado, por exemplo, a gente fez o primeiro encontro do Fórum Preto de Mobilidade, com a proposta de reunir empresas, coletivos e movimentos negros que estão pautando a mobilidade e a bicicleta. A ideia é sempre destacar questões raciais, sociais e de gênero.

Quais têm sido as ações do La Frida Bike e o que o movimento pensa para o próximo período?

Hoje, temos uma casa de mobilidade para pessoas negras e periféricas: a Casa La Frida, que é um ponto de apoio para mulheres negras. Dentro da Casa La Frida temos uma linha de bike chamada Bicipreta, que é o nosso empreendimento. 

Como o urbanismo tático prepara as cidades para o pós-pandemia?

Produzimos bicicletas diferenciadas e recentemente criamos o capacete For The Black, pensado para pessoas negras. É um produto que leva em conta a estrutura do cabelo afro e possui uma diametria adequada para promover conforto e valorizar a identidade negra. 

Sobre nossas novidades: a gente vai fazer cinco anos agora e vamos lançar um projeto de cunho nacional a ser lançado no dia 3 de outubro. Ainda estamos preparando tudo, então, por enquanto é segredo. Mas vem coisa boa por aí. 

Quer conferir debates sobre uma mobilidade urbana mais democrática? Conheça o Estadão Summit Mobilidade.

Gostou? Compartilhe!