Campanha em Bolonha premia ciclistas com cerveja e sorvete

30 de maio de 2020 5 mins. de leitura
Iniciativa da cidade italiana inova ao propor mudança de comportamento de forma lúdica

Andar de bicicleta é uma atividade que concilia bem-estar, saúde e sustentabilidade, mas e se, além desses benefícios, o ciclista fosse presenteado com sorvete e cerveja apenas por pedalar? Isso é o que propõe a prefeitura de Bolonha, no norte da Itália, que está distribuindo esses “mimos” para quem deixa o carro em casa e opta pela bike.

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Para receber os presentes, os cidadãos bolonheses podem baixar um aplicativo chamado Bella Mossa, algo como bom trabalho, em português. Os idealizadores do programa afirmam que outras formas de viagem oferecem uma série de benefícios, como milhas ou redução no preço do combustível, então por que não propor que bicicletas também gerem premiação?

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O trajeto cadastrado no celular cruza os dados com a localização do GPS do aparelho, que funciona como um autenticador de que as viagens foram de fato feitas em trajeto e velocidade compatíveis com o registrado. Mas o app não contempla os ciclistas de acordo com a distância, e sim com a assiduidade, afinal o objetivo é mudar hábitos. Em média, oito viagens rendem um sorvete que pode ser retirado nos estabelecimentos conveniados.

Além de lúdica, a decisão é inovadora em relação à maioria das políticas que objetivam desestimular o uso do carro, porque reforça positivamente a conduta considerada ideal. Em geral, quando o poder público decide regular o fluxo de carros, pune quem opta pelos veículos automotores particulares.

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Outro exemplo de política não punitiva ocorreu em Bari, também na Itália. Assim como em Bolonha, visava-se reduzir o uso de carros e estimular a bicicleta como meio de transporte. A saída criada pela administração da cidade foi uma política que remunera o quilômetro pedalado, além de subsidiar parte do valor gasto para adquirir uma bike.

Ambas as políticas são excepcionais no método de reforço positivo e abrem uma discussão importante: afinal, punir é mesmo o melhor remédio ou há espaço para outras formas de engajar o comportamento da população?

Punição…

Visando diminuir congestionamentos em Londres, a prefeitura optou pelo pedágio urbano. (Fonte: Shutterstock)

Uma forma bastante conhecida de desestímulo ao uso de carros no Brasil é o rodízio de veículos adotado em São Paulo (SP). A proibição é de que determinados carros, com base no número da placa, transitem em alguns dias. A saída é funcional, mas bastante restritiva.

Outra opção de coerção do uso do carro em diversas cidades do mundo é o pedágio urbano. Nova York (EUA), Londres (Inglaterra) e Singapura são exemplos de locais que restringiram o fluxo de veículos em determinadas áreas nos horários de pico. Assim, caso decida circular nessas regiões, o motorista deve pagar uma taxa.

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Especialistas afirmam que a segunda opção pode ser mais interessante que o rodízio de placas porque não proíbe taxativamente a circulação e pode aplicar o valor recolhido pelo pedágio urbano para financiar modais mais sustentáveis, como construir ciclovias ou diminuir as tarifas de ônibus. Londres teve o caso de maior sucesso nesse sentido, mas recebeu críticas de que a medida era punitiva demais em relação à ineficácia estrutural com falta de linhas de ônibus e estacionamentos em áreas adjacentes à região tarifada.

… ou reforço?

Uso de bicicleta traz ganhos para a saúde e para o meio ambiente, sendo estimulado de diversas maneiras no mundo todo. (Fonte: Shutterstock)

Após seis meses de funcionamento, com patrocínio do município e da União Europeia e o envolvimento do comércio local, o sistema de recompensas de Bolonha foi considerado um sucesso. A cidade tem menos de 400 mil habitantes, mas foram contabilizados nesse semestre 3,7 milhões de quilômetros percorridos e 16 mil cupons de troca gerados.

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Para Kester Carrara, pesquisador do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências do Campus Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp), “não há fato econômico sem o comportamento do consumidor, do apostador da Bolsa de Valores; não há educação sem o comportamento de educador e educando”. Por isso, faz sentido compreender o contexto e a dinâmica na qual as pessoas tomam decisões e pensar em novas formas de estimulá-las.

Isso vai ao encontro da avaliação da experiência italiana: os usuários relataram que os ganhos ambientais e de saúde são importantes, mas que o reforço positivo materializado no sorvete e na cerveja foram importantes na mudança de comportamento e na aquisição do hábito de pedalar.

Fonte: BBC, Bicycling, ABPMC.

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