3 exemplos de segregação socioespacial

7 de dezembro de 2021 4 mins. de leitura
Conheça os casos de desigualdade socioespacial e os impactos disso

A segregação fundou a urbanização brasileira. Desde os primeiros cortiços, que receberam a população mais pobre e foram varridos por políticas higienistas, até o fenômeno da gentrificação — com as cidades materializam os conflitos sociais. Ainda em 1978, o geógrafo Milton Santos comentou a desigualdade socioespacial: “Cada homem vale pelo lugar onde está. O seu valor como produtor, consumidor e cidadão depende de sua localização no território […]. A possibilidade de ser mais ou menos cidadão depende, em larga proporção, do ponto do território onde se está”.

Mas como isso se materializa no dia a dia? Confira três exemplos desse tipo de desigualdade nas principais cidades brasileiras.

1. Morumbi e Paraisópolis, em São Paulo

Diferença entre comunidades vizinhas demonstra que a segregação espacial opera uma marcação arbitrária do território. (Fonte: Vilar Rodrigo/Wikimedia/reprodução)
Diferença entre comunidades vizinhas demonstra que a segregação espacial opera uma marcação arbitrária do território. (Fonte: Vilar Rodrigo/Wikimedia/reprodução)

Um dos maiores exemplos de desigualdade socioespacial é a relação entre Morumbi e Paraisópolis. Ambos os bairros abrigam diferentes segmentos sociais, classes A, B, C, D e E, respectivamente. Na favela, há mil habitantes por hectare e no Morumbi, 30 habitantes por hectare.

Paraisópolis nasceu como um espaço destinado a moradias de alto padrão. Porém, a partir de 1950, migrantes que chegavam em São Paulo passaram a ocupar a região, sobretudo os nordestinos. Hoje essa é a segunda maior favela de São Paulo e, nela, 75% das pessoas não têm acesso a rede de esgoto, além de que apenas metade das ruas são asfaltadas e 60% das casas obtêm energia elétrica de modo irregular.

No Morumbi, vizinho à comunidade, há alguns condomínios de luxo, como Jardim Vitória Régia, Paço dos Reis e Portal do Morumbi. No site desse último empreendimento, que reúne apartamentos de 140 a 245 metros quadrados, o conjunto de edifícios é chamado de “um oásis em São Paulo”. 

2. PIB x IDH, no Rio de Janeiro

A favela Dona Marta, na Zona Sul do Rio de Janeiro, expõe uma lógica de ocupação do espaço semelhante à de Paraisópolis. Os índices socioeconômicos apontam a consequência disso em serviços urbanos. (Fonte: Marque Berger/TrekEarth/reprodução)
A favela Dona Marta, na Zona Sul do Rio de Janeiro, expõe uma lógica de ocupação do espaço semelhante à de Paraisópolis. Os índices socioeconômicos apontam a consequência disso em serviços urbanos. (Fonte: Marque Berger/TrekEarth/reprodução)

Perto de atingir 7 milhões de habitantes, a cidade do Rio de Janeiro tem uma divisão do espaço urbano que muito se lembra da lógica entre Morumbi e Paraisópolis. A favela Dona Marta, ao lado do bairro de Botafogo, e o Morro do Cantagalo, ao lado de Copacabana, são exemplos dessa disparidade.

Mas, se a fotografia capta a desigualdade estética na ocupação dos bairros vizinhos, os índices socioeconômicos dão conta de registrar uma realidade que não aparece tão facilmente. O Rio de Janeiro responde pelo segundo maior Produto Interno Bruto (PIB) do País, sendo que, em 2019, foi de R$ 472 milhões. Porém, a desigualdade social torna isso um motivo de profunda desigualdade.

Prova disso é que, quando o assunto é desenvolvimento social e humano, a cidade não tem o mesmo protagonismo: o Rio de Janeiro ocupa o 45° lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

O Índice de Progresso Social (IPS) também atesta o problema. Criado na Universidade de Harvard e no Massachusetts Institute of Technology (MIT), o método aponta que o Rio de Janeiro está em 60,7, em uma escala de 0 a 100. Contudo, esse número esconde uma desigualdade: enquanto o bairro de Botafogo conquistou 86,9, a região da Pavuna ficou com 41,32.

3. Expectativa de vida em Curitiba

Duas cidades: quem vive na Vila Torres, em Curitiba, vive em média 12 anos a menos do que os habitantes do Água Verde, a 3 quilômetros de distância do local. (Fonte: PMC/reprodução)
Duas cidades: quem vive na Vila Torres, em Curitiba, vive em média 12 anos a menos do que os habitantes do Água Verde, a 3 quilômetros de distância do local. (Fonte: PMC/reprodução)

A capital paranaense é outro exemplo de desigualdade socioespacial. Dentre as diferentes formas de perceber o problema, a expectativa de vida demonstra o resultado de um processo complexo, que envolve acesso a saúde, emprego, educação e outros serviços.

Um estudo que observou dados ao longo de dez anos indicaram isso. Primeiro lugar da lista, o bairro Água Verde tem um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) de 0,956 e expectativa de vida ao nascer de 81 anos. Para se ter ideia, o IDH da Noruega é de 0,957.

Nos piores lugares, estão uma série de bairros periféricos. Com IDHM de 0,623 e expectativa de vida de 69 anos (12 anos a menos do que no Água Verde), constam as localidades Parolin, Prado Velho, Cidade Industrial de Curitiba, Cachoeira, Tatuquara, Umbará, Boqueirão e Ganchinho.

Fonte: Portal do Morumbi, Banda B, Trek Earth, Chão Urbano, Mundo Educação.

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