Ampliação de ruas pode piorar congestionamentos, mostram estudos

15 de julho de 2021 4 mins. de leitura
O aumento da capacidade de tráfego de carros nas ruas, ao contrário do que se pensa, apenas piora os índices de congestionamentos, apontam estudos

Os congestionamentos estão entre os principais problemas de mobilidade urbana nas cidades de todo o mundo. Isso faz as autoridades públicas se preocuparem com a construção de novas vias e a ampliação das existentes. 

Entretanto, os grandes projetos de infraestrutura viária, que consomem vultosos recursos econômicos e modificam a paisagem urbana, vêm sendo questionados. Estudos mostram que eles podem piorar ainda mais a situação.

Mais ruas, mais congestionamentos

Novas vias para automóveis são construídas na esperança de melhoria da fluidez do trânsito. (Fonte: Shutterstock/Panya7/Reprodução)
Novas vias para automóveis são construídas na esperança de melhoria da fluidez do trânsito. (Fonte: Shutterstock/Panya7/Reprodução)

Inúmeros estudos indicam que a expansão de faixas, construção de viadutos e novas avenidas acabam produzindo um efeito contrário ao desejado: o aumento dos engarrafamentos.

Um dos primeiros a perceber isso foi Robert Moses, responsável por transformações importantes no panorama de Nova York. Durante os 40 anos em que atuou na carreira pública, o urbanista supervisionou a construção de 35 autoestradas, 12 pontes e inúmeros parques.

Em 1939, Moses promoveu a construção de uma série de vias que mudaram o cenário da mobilidade nova-iorquina. Entretanto, três anos depois, o próprio urbanista concluiu que a nova infraestrutura viária acabou gerando mais problemas de trânsito do que os já existentes.

Tráfego induzido

O mesmo fenômeno foi observado em outras cidades do mundo. Em 1996, o professor de Política de Transporte Phil Goodwin, do Centre for Transport and Society da Universidade de West of England, cunhou o termo “tráfego induzido”, a partir de dados de autoridades britânicas.

O estudioso concluiu que a facilidade gerada pelas novas ruas estimula mais o uso do automóvel, o que aumenta naturalmente o trânsito até saturá-lo. Dessa forma, seria necessário um novo investimento para expansão da infraestrutura, mantendo o estímulo e causando um ciclo vicioso sem fim.

O caso de São Paulo

A adição de nova faixa na Marginal Tietê piorou a lentidão no tráfego local. (Fonte: Shutterstock/Gustavo Frazao/Reprodução)
A adição de nova faixa na Marginal Tietê piorou a lentidão no tráfego local. (Fonte: Shutterstock/Gustavo Frazao/Reprodução)

Os efeitos adversos da ampliação da infraestrutura viária nos congestionamentos também foram sentidos no Brasil. O caso mais evidente foi a construção da terceira via da Marginal Tietê em São Paulo, em 2010, que prometia mais fluidez no trânsito. A obra, que custou R$ 1,5 bilhão, teve efeito positivo apenas durante os três primeiros anos após a inauguração.

Quatro anos depois, os dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) apontaram que a lentidão média em dias úteis da via subiu até 80%. Em 2014, a lentidão média no horário de pico da tarde, que era de 19,8 quilômetros, em 2010, subiu para 35,7 km. No entanto, no período, a frota de veículos circulando nas ruas paulistanas teve um aumento 17,5%.

Evaporação do tráfego

Por outro lado, a redução dos congestionamentos pode ser alcançada pela redistribuição viária do espaço. O trânsito tende a desaparecer quando as vias destinadas para os veículos particulares passam a ser destinadas para os modos de transporte mais sustentáveis, como caminhada, bicicleta e transporte coletivo.

O fenômeno, conhecido como “evaporação do tráfego”, foi descrito em um artigo publicado por Goodwin e outros dois pesquisadores na revista Municipal Engineer. Na pesquisa, foram analisados 70 estudos de caso de redistribuição de espaço viário, e a conclusão foi de que as pessoas ajustam seu comportamento de forma imprevisível para os modelos de tráfego implantados.

Fonte: The City Fix, Mobilize, WRI Brasil, Britannica, Springer Link, Nacto.

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