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Como a acessibilidade para crianças e bebês transforma cidades?

21 de abril de 2023 6 mins. de leitura
Entenda por que o cuidado para que crianças e bebês tenham maior atenção ajuda a melhorar a mobilidade urbana para todos os cidadãos

Segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2020 cerca de 1 bilhão de habitantes do mundo eram crianças e bebês com menos de 5 anos. Apesar do protagonismo em números, esses cidadãos mirins têm perdido espaço nas maiores cidades. Um documento do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento em conjunto com a Fundação Bernard van Leer analisou como as grandes cidades estão se tornando hostil para as crianças e quais são os efeitos disso para toda a mobilidade urbana.

Entenda por que tornar as cidades mais acessíveis para crianças e bebês é uma necessidade e um benefício para todos os habitantes.

Padrão espacial excludente

O desenvolvimento da maioria das grandes cidades seguiu um padrão de adensamento de serviços, comércio, empregos e estudo nos centros enquanto trabalhadores migravam para as periferias. Isso gerou o fenômeno dos deslocamentos pendulares, quando os contingentes populacionais lotam o transporte público em uma direção pela manhã e voltam no turno da noite.

A falta de boa infraestrutura de caminhabilidade é um dos principais desafios nas periferias do Brasil.
Falta de infraestrutura de caminhabilidade é um dos principais desafios nas periferias do Brasil. (Fonte: Getty Images/Reprodução)

Em boa parte, as soluções de mobilidade urbana foram pensadas para essa lógica e para esses horários, por isso se multiplicam as ofertas de veículos no horário mais demandado e é aumentada a largura das vias para comportar mais carros.

Esse modelo de desenvolvimento é problemático em vários sentidos e deu origem a diversos gargalos para a mobilidade urbana, um deles sendo a dificuldade de mães e cuidadores que precisam se deslocar com crianças. Além disso, a falta de espaço e de opções de lazer para os cidadãos mirins força a manutenção da vida doméstica e afeta toda a família.

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De que as crianças precisam?

Interações lúdicas significativas e responsivas entre crianças e cuidadores são fundamentais para o desenvolvimento sadio da mente e do corpo. Garantir que os pequenos possam estar em espaços públicos dá mais confiança para que as famílias saiam de casa tranquilas, ajudando as crianças a ter experiências coletivas, exercitar-se e gastar energia com mais facilidade.

As necessidades de famílias com crianças são bem diferentes das de pessoas que vivem sozinhas. No geral, o padrão de deslocamento de quem não cuida de menores se resume a viagens de casa para o trabalho e para compras ou estudos. Já que tem criança segue um padrão de deslocamento bem mais complexo, que engloba ir para a creche ou a escola antes do trabalho, voltar e fazer o mesmo trajeto, além de se deslocar para a casa de avós e outros familiares, parquinhos, espaços de lazer e compras.

Boa infraestrutura urbana melhora a vida para todos.
Boa infraestrutura urbana melhora a vida de todos. (Fonte: Getty Images/Reprodução)

Investimentos em micromobilidade e descentralização

A maioria desses deslocamentos precisa ser realizada a pé, principalmente por famílias de menor poder aquisitivo, e isso fica ainda mais difícil quando as opções de estudo e lazer são restritas ao centro das cidades. Esse efeito anda em conjunto com a tendência atual da mobilidade urbana global de “descentralizar as cidades”. A ideia, baseada no conceito de cidade de 15 minutos, é criar vários pequenos centros com oferta de serviço, comércio, escolas e lazer, reduzindo a necessidade de grandes deslocamentos diários.

Tal descentralização só funciona para quem cuida de crianças se houver investimento em mobilidade ativa, então precisa haver boa estrutura de caminhabilidade pelos bairros. Não raro, mães e cuidadores precisam andar com carrinhos de bebê e uma série de acessórios, e calçadas sem rampas ou sem as mínimas condições de deslocamento podem tornar essa tarefa quase impossível.

O mesmo vale para as estruturas de lazer. Se parquinhos e praças não forem bem cuidados, não vão atrair o público correto, o que deixará as famílias cada vez mais restritas ao ambiente doméstico. Transporte público lotado e sem acessibilidade também faz que cuidadores só se desloquem em casos de extrema necessidade.

Uma das principais soluções para ônibus, que são a maior parte do transporte público brasileiro, é o embarque no mesmo nível da porta, como ocorre em sistemas de ônibus de trânsito rápido (BRT). Nesses casos, os passageiros pagam a passagem e esperam em estações para entrar nos veículos. Esse modelo costuma ter maior cuidado com cuidadores e pessoas com deficiências, já que há rampas e espaços reservados para eles.

Melhorias para todos

O investimento em calçadas de bairros residenciais também facilita o desenvolvimento de ciclovias, que são opções de mobilidade ativa fundamentais para facilitar o deslocamento de quem cuida de crianças e precisa fazer vários trajetos menores ao longo do dia.

Crianças são cidadãos, e qualquer investimento na melhoria das condições de acessibilidade para um grupo específico melhora a mobilidade urbana de todos. Uma melhor infraestrutura de caminhabilidade e de ciclofaixas é benéfica para crianças que estão começando a andar ou se deslocando em triciclos e bicicletas, assim como para quem as acompanha.

Mais opções de transporte público e investimentos em novos modais auxiliam a desafogar a lotação, facilitando o embarque de crianças, cuidadores e outras pessoas. A descentralização cria oportunidade de lazer e desenvolvimento cultural, além de novos serviços, bem como diminui a necessidade de longos deslocamentos.

Pensar a mobilidade urbana é como pensar um organismo vivo, em que cada decisão afeta o todo, e não raro ajudar uma pequena parte faz bem para o todo.

Fonte: IBGE, Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, Caos Planejado

UNICEF, ArchDaily, Mobilidade Estadão, ITDP Brasil

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