Retomada verde pode fomentar cidades mais sustentáveis

23 de setembro de 2020 5 mins. de leitura
Reconstruir a economia com foco na sustentabilidade tende a trazer vantagens financeiras e ecológicas

Os impactos da pandemia de covid-19 na economia são uma grande preocupação para as autoridades e os setores da sociedade, que estão sentindo os reflexos do isolamento social diretamente no bolso. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pandemia contribuiu para o desemprego de 7,8 milhões de pessoas até maio de 2020. 

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Além disso, o PIB brasileiro deve apresentar uma queda de 5,62% este ano, de acordo com o Banco Central. Porém, à medida em que se começa a discutir a retomada da economia, um novo conceito ganha força no mundo inteiro: a retomada verde.

Já que é necessário reconstruir a economia, que isso seja feito em um modelo que dê mais importância para a sustentabilidade, preparando os países para mudanças climáticas e novas pandemias. 

O conceito da retomada verde compreende que os próximos investimentos sejam direcionados para setores menos prejudiciais ao meio ambiente e novos empreendimentos que auxiliem no combate ao aquecimento global. Assim, seria possível não apenas retomar a economia, mas fazer com que a redução nas emissões de poluentes que ocorreu durante a quarentena global seja fortalecida.

Incentivo a veículos elétricos e formas de mobilidade menos poluentes fazem parte do conceito de retomada verde (Fonte: Unsplash)
Incentivo a veículos elétricos e formas de mobilidade menos poluentes fazem parte do conceito de retomada verde. (Fonte: Unsplash)

Retomada verde pode frear o aquecimento global

A retomada verde não é apenas viável economicamente, mas também é ecologicamente. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Leeds, no Reino Unido, e publicada no final de agosto pela revista científica Nature Climate Change comparou dois cenários: um seguindo o mesmo panorama de uso de combustíveis fósseis de antes da pandemia, e o outro pautado no conceito de retomada verde, estimulando o uso de energias limpas. 

No primeiro cenário, o planeta ficaria 1,5°C mais quente antes de 2050. O mundo já está 1°C mais quente do que no século 19, época da Revolução Industrial, e o limite de 1,5°C é considerado o máximo que a Terra consegue suportar sem consequências mais graves para a vida em sociedade — portanto, essa é a meta dos importantes tratados climáticos, como o Acordo de Paris.

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Por outro lado, seguindo os preceitos da retomada verde — que, na mobilidade urbana, passa a incentivar o uso de veículos de baixa emissão, o transporte público e as bicicletas —, o planeta esquentaria 0,3°C menos do que no primeiro cenário. Isso significa que seria possível diminuir o aquecimento global mais do que a metade nas próximas três décadas.

Segundo o principal autor do estudo, Piers Forster, as vantagens da retomada verde poderão ser sentidas pelo planeta e também por todos que vivem nele. “A melhor qualidade do ar terá efeitos importantes na saúde e começará a esfriar o clima imediatamente”, afirmou o pesquisador.

Esse modelo também pode ser vantajoso para o Brasil

Outro trabalho, também divulgado em agosto, mostrou as vantagens da retomada verde no contexto específico do Brasil. A pesquisa, intitulada Uma Nova Economia para uma Nova Era, foi produzida pelo Instituto WRI Brasil e calcula que a adoção da retomada verde pode diminuir a emissão de gases de efeito estufa pelo País em 42% até 2025 (na comparação com 2005). Assim, seria possível superar a promessa feita no Acordo de Paris, estipulada em 37%. 

Além do impacto ambiental, adotar o novo conceito implicaria vantagens financeiras e sociais: 2,8 trilhões a mais no PIB e a geração de 2 milhões de empregos. A ideia dos autores do estudo, para isso, é deixar de investir nos setores que pioram as mudanças climáticas para focar naqueles que podem revertê-la, gerando emprego e renda no processo. 

Entre as sugestões da pesquisa para esse movimento estão os incentivos a veículos elétricos ou híbridos; o aumento da eficiência e da produtividade em setores como agropecuária e construção; o investimento em fontes de energia renovável; e a restauração das florestas — em especial a Amazônia. 

Segundo os cálculos do WRI Brasil, a restauração de 12 milhões de hectares de florestas até 2030 poderia gerar 250 mil empregos.

A recuperação de florestas poderia gerar 250 mil empregos (Fonte: Unsplash)
A recuperação de florestas poderia gerar 250 mil empregos nos próximos dez anos. (Fonte: Unsplash)

Investir em fontes de energia renovável também poderia criar postos de trabalho: 408 mil nos próximos dez anos, segundo o estudo, com investimentos de R$ 12 bilhões para aumentar a eficiência energética do país em 10%. 

O principal caminho para isso seria a energia solar: de acordo com a Absolar, entidade que representa o setor, cada megawatt dessa fonte gera 30 empregos, contra 2,6 em hidrelétricas e menos de 1 nas termelétricas a gás. 

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A gestão de resíduos também faz parte da retomada verde: investindo entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões — menos da metade do que é gasto atualmente com os serviços de coleta de lixo —, seria possível organizar meio milhão de catadores em cooperativas. 

Isso representaria um trabalho para cerca de 7% das pessoas desempregadas no País. Já no saneamento básico, importante para o enfrentamento de pandemias como a da covid-19, cada bilhão de reais investido em obras gera 10 mil empregos — o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) demanda R$ 30 bilhões por ano.

Fonte: WRI Brasil, Estadão

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