Como levar transporte de qualidade até o alto dos morros

1 de setembro de 2022 5 mins. de leitura

Saiba garantir transporte coletivo para quem vive em comunidades periféricas localizadas em terrenos íngremes

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Nos sambas do Rio Janeiro (RJ), subir os morros cariocas pode ter uma boa dose de poesia, mas, no dia a dia das maiores cidades do País, o transporte para essas regiões não tem o mesmo lirismo.

Em geral, elas concentram as periferias urbanas, e os gargalos de infraestrutura urbana muitas vezes são maiores do que as ladeiras. E aí a população mais pobre, que mais depende do transporte coletivo, fica sem acesso a um serviço de qualidade.

O Estadão Summit Mobilidade conversou com especialistas para entender mais do problema e enxergar soluções para o setor. Confira algumas saídas.

1. Enxergar a mobilidade como direito social

Linhas de ônibus têm mudanças para atender estudantes no retorno às aulas -  Prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim - ES
Mobilidade é direito social e condição para que o cidadão acesse outros serviços, como saúde e educação. (Fonte: Prefeitura de Cachoeiro do Itapemirim/ES/reprodução)

Para Hugo Alexander Martins Pereira, professor dos cursos de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo da Universidade Positivo (UP), ainda é preciso efetivar na prática o que a Constituição prevê: “O transporte coletivo é um serviço essencial, tal como educação, saúde, moradia e habitação, e ele é parte da solução das demandas dos moradores de uma região”.

De acordo com o arquiteto e urbanista Carlos Hardt, professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a participação social é fundamental na busca de soluções.

“Um projeto adequado e bem-elaborado, discutido com a própria comunidade, tem sido uma das boas práticas para que se tenha maior chance de êxito na oferta de um serviço de qualidade compatível com a capacidade financeira da prefeitura e socialmente mais justo”, revela Hardt.

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2. Focar a caminhabilidade

É preciso considerar que, antes de serem condutoras de moto ou carro ou usuárias de transporte coletivo, as pessoas são pedestres e usam calçadas. Isso vale para deslocamento a pé, para quem usa cadeira de rodas ou quem leva um bebê para passear em um carrinho.

Pensando nesses últimos casos, isso implica um recorte de gênero importante, já que as mulheres ainda são as mais responsabilizadas pelo cuidado de pessoas e as que mais se dedicam à gestão das tarefas domésticas.

“É fundamental prover condições seguras e em conformidade com a norma de acessibilidade (ABNT NBR 9050) para passeios (calçadas), rampas e escadas”, diz Pereira. Mesmo pessoas que usam modais de transporte coletivo ou motocicleta e carro precisam ter boa condição de caminhabilidade. Por isso, muita atenção às calçadas.

3. Pensar em estruturas e modais específicos

Elevador Lacerda – Pelourinho Dia e Noite
O Elevador Lacerda, em Salvador, é um exemplo de instrumento de mobilidade pouco usual aplicado em um declive significativo. (Fonte: Prefeitura Salvador/BA/Reprodução)

O debate sobre como levar o transporte até a periferia vem de longe, mas, no caso dos morros, é preciso considerar que o terreno acidentado pode gerar dificuldades a mais, e é aí que entram os desafios na busca das soluções.

Para Hardt, o relevo não é razão suficiente para justificar a oferta de um serviço de menor qualidade. Medellín (Colômbia) é um exemplo de cidade com relevo acidentado e que, apesar disso, é referência em mobilidade. Contudo, é verdade que essa característica exige soluções específicas, como teleféricos, elevadores e veículos sobre trilhos, como bondinhos.

Há experiências internacionais interessantes em relação a teleféricos, mas esse modal tem custo alto de implantação e operação. Há outras propostas para planos inclinados, como veículos sobre trilhos com sistema de tração especial e elevadores especiais em altíssimas declividades, segundo o especialista.

Pereira também cita outras ações possíveis nos casos que usam o modal rodoviário, como:

  • planejar áreas de manobra em pontos finais e vias mais largas para ônibus circularem com segurança;
  • prever áreas seguras com espaço e proteção para a instalação de abrigos (pontos de ônibus);
  • reduzir a velocidade das ruas, de modo a adequar o fluxo ao contorno das vias e considerar peças de veículos mais expostas a desgastes.

Com essa soma de ações, é possível garantir o direito à mobilidade de quem vive nos morros que contornam as principais cidades brasileiras.

Quer saber mais? Assista aqui à opinião e à explicação de nossos parceiros especialistas em Mobilidade.

Fonte: Prefeitura de Cachoeira Itapemirim, Prefeitura de Salvador, Hugo Alexander Martins Pereira, professor dos cursos de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo da Universidade Positivo; Carlos Hardt, professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

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